terça-feira, 4 de junho de 2013

Volta

                                                     



    Resolveu se desfazer de muita coisa antes de partir. Deixou para trás roupas, sapatos, brincos, ideias, teorias, teses completas. Quase nada do que era essencial para ela antes faria, agora, parte de sua vida. Não eram as mesmas pessoas a esperá-la, nem ela deveria ser ela mesma agora, nunca soube ao certo. Resolvida, colocou apenas suas lembranças concretas e os presentes sempre lembrados na imensa mala que levaria para despachar.
    No caminho pensou em desistir, em tentar de novo: “quem sabe é aqui o meu lugar?”, falava com ela mesma, já que ninguém mais ouvia. O silêncio era desconsertante e o caminho certo. Era tarde para desistir, a decisão veio daquele momento exato e deveria ser cumprida às cegas. E jamais poderia ver o que estava em seu presente e muito menos a sua frente.
    Para sua grande surpresa, a grande mala não passou. Detida estava agora, entre o tempo contado que passava rápido demais e o outro que, pesado, denunciava, devagar, novos rumos. Pesada demais, teve de ser revirada várias vezes por estar acima do permitido. O que pesaria tanto assim nessa nova vida empacotada? Um vazio, um espaço, o eco, era apenas isso que sentia.
    E arrumava, encaixava, escolhia a dedo o que mais poderia deixar para trás, como se houvesse espaço fora para se deixar mais coisas, mesmo assim tentava, sem muito pensar, reorganizar, para tentar deixar mais leve o que jamais conseguiria aguentar. Ela sabia e estava bem forte até então.
    Entre abraços embalados, pessoas que embalavam, promessas desembaladas e um choro por embalar, partiu. A cena era realmente de cinema, como ela sempre sonhou viver, mas suas consequências, ela jamais ousou pensar. Não era mais aquela que chegou e muito menos sabia quem era que estava relatando esse melancólico adeus.
    Passou por alguns temores que qualquer viajante passa entre um destino e outro, mas jamais poderia imaginar a queda. Brusca e trágica. Não, jamais poderíamos matar nossa heroína, ela desabou em choro desmedido, em felicidade roubada, desabou em nova vida, que passa a viver até agora.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Seu estranho



   "E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta"
Chico Buarque

   O primeiro amor me destruiu por completo, foi tarde para tê-lo, no auge dos meus vinte e poucos anos e não acreditei, de primeira, que era mesmo o primeiro amor. Achava eu que já tinha vivido de tudo um pouco, que sabia bem mais do que podia provar, achei até que já havia amado. A verdade toda é que só me descobri amando, quando finalmente me destruí por completo.
   Percebi então que esse primeiro amor jamais poderia ser meu último, esse foi o mais infeliz de todos. É o que mais dói, o menos correspondido, o mais imaturo de todos (e isso não tem nada com a idade que amamos ou o tempo de amor). O primeiro amor veio para ensinar, poucas lições, e nada mais.
   O primeiro amor me humilhou, me arrastou, me fez ser o pior de mim e me tirou tudo que eu era até, enfim, me tirar da sua vida. Sim, foi ele que me expulsou, eu jamais teria essa coragem. 
   E tanto me arrastou por essa vida desde então, até que percebi que não deixou nenhuma foto, nenhum resquício. Hoje é apenas sombra e um pouco de rancor, nada que me proíba de viver. O primeiro amor ficou, não nessa vida.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Tato

    Depois de tantos anos ouvindo tentativas falsas de elogios, palavras que todos gostam de ouvir mas não se reconhecem. Após tanto tempo ouvindo que sou grossa, que não sou nem um pouco delicada ou feminina, que eu era brava simplesmente (como se não houvesse motivo), depois de todas as pessoas que passaram tentando me definir, e eu acreditando nelas, depois de me contentar em ter a personalidade forte. Tantos adjetivos para uma pessoa só, alguns machucavam bastante, outros faltavam complemento, a maioria me fez refletir.
Você chegou, me dizendo uma única e especial vez, a única palavra que realmente me comoveu diante de mim mesma. Nunca me reconheci e me senti tão feliz dentro de uma palavra, e ninguém nunca tinha me dito que assim eu sou, antes de você. Foi a minha primeira característica marcante que eu realmente acreditei, e foi você que me disse, você, e mais ninguém.
Pode parecer até meio bobo mas, de certa forma, vamos admitir, sempre existe algo que é sua característica marcante, por muito tempo achei que a minha era ser 'simplesmente grossa', e minha insegurança e autoestima, podem acreditar, não melhorava sabendo quem eu era. Mas você me definiu como a 'pessoa mais sensível que você conhece', e nesse momento chorei. Talvez por, pela primeira vez, ter acreditar cegamente em algo.
E você me definiu assim, no sentido mais sensível da palavra sensível. Não aquela pessoa que não consegue ouvir verdades ou que chora pela novela. Mas por ser alguém que se sente tocada ao se deparar com as mais diversas qualidades do ser humano, e se lamenta, profundamente, com os defeitos. Por ser alguém que comove e se deixa comover nas horas mais inesperadas e mais sinceras. E sensível, por ser alguém que vai se lembrar do dia que você assim me definiu pro resto da minha vida. Obrigada.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Jamais olvidar


Eu não estou acostumada a lidar com a ausência, e nunca estarei. 

Lembro muito bem do dia que ninguém quis prestar atenção na sua aula, acho que foi na oitava série, sala cheia de adolescentes, a idade crítica. Só porque você era “o professor bonzinho” acharam que podiam fazer o que quisessem na sua aula, e não paravam de conversar. E ninguém te respeitava naquele momento, você gritava e mal escutar, mas eu e mais três colegas queríamos muito te ouvir, aprender o que você estava disposto a ensinar. Cansado daquela situação, você resolveu chegar bem perto da gente e dar aula pra nós quatro, continuando a explicação sobre alguma coisa de biologia (nesse dia o momento foi mais significativo do que qualquer conteúdo). Logo depois o restante da sala percebeu que havia feito 'burrada', que haviam desrespeitado uma pessoa tão boa e que só queria fazer aquilo que escolheu para a vida dela: ensinar. Pensando assim, todos cessaram a conversa, refletiram por um momento que aquele bom professor não é só bom porque ele é legal, simpático, faz piadas e é divertido, ele é bom porque nos entende, nos respeita, ele é bom porque ama o que faz e entende o que é educação, ele é bom porque tem toda aquela sabedoria e quer passar adiante. E todos te deram mais uma chance, e te escutaram e entenderam. E você, como sempre, deu um espetáculo de aula e de vida. Sua paixão e seu caráter tocaram todos os seus alunos, com certeza.

Nessa minha história agora parece faltar um personagem. Não sei entender isso e talvez nunca aprenderei essa lição. O que ainda existe e sempre vai existir pra mim (e espero que pra muito mais gente) é um exemplo a ser seguido. Vou amar e lutar pela minha profissão e carregar o melhor de mim mesma para cada aluno, assim como você, querido e eterno professor. Tão querido amigo.

domingo, 15 de abril de 2012

É dia de formatura!


      

     Não temos turma, não temos sala fixa, não temos os mesmos gostos (mesmo dentro do mesmo curso). Não nos vemos todos os dias, às vezes não nos vemos por um semestre inteiro. Nem todos querem a mesma profissão, nem todos almoçam no bandejão. Nem sempre gostamos daquele lugar, tem dias que queremos mais é faltar e explodir tudo mesmo. O engraçado é o quanto tudo isso nos aproxima muito mais uns dos outros, é único fazer parte desse mundo.
      Tenho certeza porém, que não teve um dia sequer, em todos esses anos de FFLCH que não dei um sorriso, uma risada, mesmo nos dias mais difíceis, mais complicados, nos dias em que eu ia para a Faculdade apenas para esquecer a vida, lá eu ganhei uma nova vida. Ganhei pessoas que sempre souberam me fazer sorrir, mesmo só de encontrar pelos corredores. Ganhei muito, a começar por esses sorrisos.
     Particularmente, sofri tanto por esse curso também, professores difíceis (e os ainda mais difíceis de aguentar) e matérias obrigatórias, matrícula na correria, filas e mil problemas. As crises existenciais não me abandonaram nunca, até hoje estão ao meu lado. Não sei realmente se fiz o curso que me dará o trabalho dos meus sonhos, não sei se meu caminho é realmente esse ou se estou bem preparada para o que vem pela frente. Realmente não sei de muita coisa, mas sei que nunca desisti, e não foi por orgulho ou meta de vida simplesmente. Foi por saber que o que eu estava fazendo ali era o que me completava, sem ter feito Letras, sem fazer FFLCH jamais aprenderia mais sobre mim mesma e sobre o mundo.
     Inclusive, jamais estaria escrevendo agora esse texto se não fosse por essa escolha. E não é porque Letras é algo a ver com Línguas, gramática e leitura. Não, não é isso, não estaria escrevendo nada desse tipo pois não teria aprendido tanto sobre a formação humana, e isso me faz ser um pouco mais eu, por mais difícil que seja essa busca durante a minha vida e de todo mundo. Não há nada por aí que tire esse aprendizado, esse sentimento, de dentro de mim.
     Eu achava que nada ia mudar pós a formatura simbólica de ontem, tendo aula logo em seguida e ainda não estando formada de fato. Mas o que certa pessoa me disse ontem ressoa agora na minha cabeça e me fez marcar essa data de uma maneira muito especial. Mesmo que seja simbólico esse momento, eu fiz o meu melhor pela Letras, pela FFLCH, durante todos esses anos, não sei se foi o suficiente, mas eu colhi os resultados. De qualquer forma comemorar é preciso, melhor ainda se for ao lado daqueles que sentaram perto de mim no dia da FUVEST, no dia da matrícula naquele auditório da História em 2007, nas aulas do ciclo básico, no resultado da habilitação e de cada interação de matrícula. Próximo dessas pessoas me sinto em casa, nós sabemos tudo que passamos.



Obs. Agradecer todos os envolvidos nessa etapa da minha é pouco para que eu sinto. Deixo aqui apenas resquícios e fragmentos de tudo que passei. E deixo também, para apreciação de todos, o discurso do nosso orador, que nos traduziu tão bem e como ninguém no nosso dia.

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