quinta-feira, 30 de julho de 2009

O humor é uma arte

Muitos famosos (ou famosos no circuito twitter) deram seu parecer sobre a repercussão que a piada de Danilo Gentili teve nos últimos dias. Não sou famosa em circuito nenhum, sou fã e fiquei com vontade de expressar minha opinião a respeito. E lembrem-se é apenas meu ponto de vista e eu não sou formadora de opinião nem aqui nem na Conchinchina, mas estou sempre aberta a diálogo e discussão sobre minha ideias.

Pra quem não está a parte, vou inteirá-los. Vale lembrar que para estar a par deste assuntos é sempre bom ter um Twitter hehe!

Na madrugada do dia 25 para o dia 26 Danilo Gentili escreveu em seu twitter: "King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?"

Apenas essa twittada rendeu muito assunto e foi parar fora do mundo virtual, chegou ao MPF-SP Ministério Público Federal em São Paulo que vai apurar se houve racismo ou não no pronunciamento e julgar se necessário - mais detalhes podem ser encontrados em Matéria da FolhaOnline

Danilo se explicou em seu blog, do meu ponto de vista com ótimos argumentos e divinamente bem

O assunto caiu também na boca de outros humoristas como
Helio de La Peña

Mas o que realmente caiu em discussão foi o comentário de La Peña, peço que vocês leiam todos os links se quiserem entender bem sobre o que falo.

Sou muito fã do Danilo Gentili, quem me conhece sabe o quanto admiro essa pessoa, sem ao menos conhecê-lo pessoalmente (já o vi né?! mas isso não é conhecer) já imagino a grandeza de seu caráter, o que o post de Marcio Ribeiro (o qual também sou grande fã desde a TV Cultura) só me confirmou. Também gosto do Casseta e Planeta apesar de não assistir sempre. Podem achar que isso vá influenciar alguma coisa na minha opinião, mas não, o que tenho pra dizer é muito mais geral.

Concordo com a expressão do La Peña sobre a piada do Danilo, se ele não gostou e quiser falar sobre ela tem toda a liberdade do mundo, ainda mais sendo relativamente "vitima" da tal piada. Mas não concordo quanto ao fato de classificá-la como racista, eu por exemplo até achei engraçada a piada, assim como muitas outras sobre esse tema, não só Danilo como outros muitos humoristas que escrevem por aí. Nunca me decepciono com o humor de Danilo Gentili,e não vai ser dessa vez que vou me decepcionar, mas sim só aumenta minha admiração por ele.
Não considerei certa classificar essa piada como racista, preconceituosa, pois não acho que seja, mas não quero discutir aqui o valor que ela tomou, mesmo que ela fosse dessa alçada acho um desperdício de tempo discutir sobre isso.
Como já disse no título humor é uma arte e deve ter liberdade de expressão acima de tudo. Se Danilo tivesse dado um pronunciamento sério a respeito do que acha sobre jogadores de futebol, negros, macacos ou qualquer que seja o assunto, aí sim levaríamos em conta se o autor é preconceituoso ou não. Mas o que vale é a brincadeira, rir de qualquer assunto que seja só faz bem e rir de si mesmo é melhor ainda, é a maior crítica que podemos nos oferecer, rir, rir, rir sempre... pra que discutir?
Tudo bem, vão me falar, mas os negros já sofreram muito no nosso país e ainda sofrem, é errado fazer piada deles, ah vá vá! Errado... errado é o que fizeram com eles, errado é matar, errado é menosprezar alguém pela sua cor, credo, estilo de vida ou qualquer que seja. Errado é fazer piada? Nossa o que será do nosso mundo então?
Eu sinceramente prefiro rir: quantas vezes já fiz piadinhas, falei dos outros e pensei, ai que maldade! Mas... pensando bem não fiz mal a ninguém, nunca fiz mal a ninguém (eu acho pelo menos). Rir deixa a situação mais amena. Se o brasileiro não se divertisse com certeza a maioria negra ainda passaria por tortura e escravidão. Somos um país já muito atrasado, pra que atrasar mais proibindo o riso?
Se eu escrever um livro só com brancos é preconceito? E uma foto que mostre uma criança negra em miséria nas ruas, é preconceito? Toda arte é passível de críticas (boas ou ruins), mas acho que a arte está ai para isso, ser admirada ou até repudiada, mas nunca processada. Acho que a arte verdadeira está liberada pessoal, vamos falar do que quisermos, e pra quem tem humor, saiba que já é um artista - pena que nem todos tem.

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terça-feira, 7 de julho de 2009

Letras ou Biologia?

Cada um tem um ser ou não ser não e mesmo?

O meu é, sempre foi e vai ser por muito tempo: eu sou da Letras ou da Biologia?

Eu faço Letras, já estou no terceiro ano (o tempo passa rápido) e estou na melhor faculdade do país (metida mode: on), mas mesmo assim não paro de pensar... e se eu estivesse fazendo Biologia?
Sei que são áres bem distintas, humanas e biológicas, geralmente as pessoas ficam em dúvida entre dois cursos da mesma área né?! Mas alguém no mundo tem que ser BEM perdida!

Assim começa a saga da menina perdida....

Quando eu era bem pitica, meu sonho era ser escritora:
Adulto chato -" O que vc vai ser quando crescer?"
Teté criança, tímida e com um óculos enorme na cara - "escritora" (bem baixinho...)

Até meus 10 anos, eu era assim, mas aí a criança vai crescendo e se desiludindo com o mundo adulto e tal.. e então eu decidi que queria ser geneticista, pra isso precisa ser no mínimo biólogo não é? Talvez...
E até os meus 14 anos foi um vaivém... pensei em outra profissões, mas sempre acabava voltando para geneticista hehehehe
Com 15 anos me decidi: vou ser bióloga, animais, plantas, genética, adoro tudo isso! Com 16 ainda estava pensando firme e forte nessa ideia, mas resolvi prestar terineiro na UNESP, só pra ver como que eu ia sabe?! coisa de nerd...

no meio de tudo isso revelo: minhas melhores notas sempre foram em português (sobretudo literatura) e biologia (todos os quesitos) me fascinavam as aulas desses assuntos. Mas meu carma sempre foi física e matemática... ah e também um pouco de química... Ademar teve paciência comigo... coitado!

Quando deparei-me com a prova da UNESP, vi que biologia era mais dificil de passar e que a prova do segundo dia tinha física, matemática e quimica! ECA!!! olhei pra Letras... pouca concorrência e apenas Humanas pra estudar com mais ênfase! Meu coração balançou...
prestei Letras

Não só por isso, claro, mas já tinha pensando em como seria lindo estudar literatura, português, línguas, que eu tenho tanta facilidade em aprender, seria muito agradável... ai ai...

Por incrível que pareça eu passei ¬¬ que raiva! eu ainda estava no terceiro colegial! Pensei: certeza que passo agora e não passo nesse final de ano! Maldita boca! Não passei quando estava no terceiro colegial. Prestei USP, UNESP E UNICAMP Letras e UFLA Biologia. Não passei em nada =/ tristeza...

Mas aí me decidi, por ajuda de muitas pessoas, e depois de muito pensar e ponderar, que meu destino era Letras, eu tinha muita facilidade, adorava literatura e ficava fascinada com aquele mundo letrado com o qual eu já estava envolvida (minha mãe fez Letras, assim como as amigas dela, as irmãs delas e minhas primas). E ficou decidido, iria fazer cursinho pra prestar Letras.

Durante o ano de cursinho no Etapa (puuuxa!) não tive dúvidas, era Letras e ponto. Se bem que... sempre me batia uma invejinha de quem ia prestar Biologia... Mas nada que fizesse mudar meus planos. e passei pessoal... em tudo que prestei! uau!!! =D Parabéns pra mim! clap, clap, clap! (metida mode: on)

E agora aqui estou eu, letróloga que procura matérias optativas no Instituto Oceanográfico e no Instituto Biológico... que vai bem nessas matérias e mal nas suas obrigatórias da Letras... que procura saber de tudo sobre ese mundo biológico e
as vezes fica enjooada do acadecimismo da Letras...
Aqui estou eu... que baba quando se depara diante da maior literatura do mundo: a brasileira.. que assiste aulas como se estivesse no paraíso... que adora entender os processos linguisticos.. que entende que a linguagem é a definição do homem.

Siiim, eu sei que vou ser professora nos dois casos! Mas eu quero ser, e não sou estranha por isso.

E aí, abandono tudo e começo tudo de novo? Faço as duas coisas e vamos ver no que vai dar? Não faço nada e me mudo pro hospício?

ai ai ai
quem sou eu?

aceito ajuda!

explico o titulo

e o título vem por ela! Deusa

Clarice Lispector

Devaneio e Embriaguez duma Rapariga

Pelo quarto parecia-lhe estarem a se cruzar os elétricos, a estremecerem-lhe a imagem refletida. Estava a se pentear vagarosamente diante da penteadeira de três espelhos, os braços brancos e fortes arrepiavam-se à frescurazita da tar­de. Os olhos não se abandonavam, os espelhos vibravam ora escuros, ora luminosos. Cá fora, duma janela mais alta, caiu à rua uma cousa pesada e fofa. Se os miúdos e o ma­rido estivessem à casa, já lhe viria à idéia que seria des­cuido deles. Os olhos não se despregavam da imagem, o pente trabalhava meditativo, o roupão aberto deixava apa­recerem nos espelhos os seios entrecortados de várias raparigas.
"A Noite!", gritou o jornaleiro ao vento brando da Rua do Riachuelo, e alguma cousa arrepiou-se pressagiada. Jogou o pente à penteadeira, cantou absorta: "quem viu o par­dal-zito... passou pela jane-la... voou pr'além do Mi-nho!" — mas, colérica, fechou-se dura como um leque.
Deitou-se, abanava-se impaciente com um jornal a farfalhar no quarto. Pegou o lenço, aspirava-o a comprimir o bordado áspero com os dedos avermelhados. Punha-se de novo a abanar-se, quase a sorrir. Ai, ai, suspirou a rir. Teve a visão de seu sorriso claro de rapariga ainda nova, e sorriu mais fechando os olhos, a abanar-se mais profundamente. Ai, ai, vinha da rua como uma borboleta.
"Bons dias, sabes quem veio a me procurar cá à casa?", pensou como assunto possível e interessante de palestra. "Pois não sei, quem?", perguntaram-lhe com um sorriso galanteador, uns olhos tristes numa dessas caras pálidas que a uma pessoa fazem tanto mal. "A Maria Quitéria, homem!", respondeu garrida, de mão à ilharga. "E se mo permite, quem é esta rapariga?", insistiram galante, mas já agora sem fisionomia. "Tu!", cortou ela com leve rancor a palestra, que chatura.
Ai que quarto suculento! ela se abanava no Brasil. O sol preso pelas persianas tremia na parede como uma gui­tarra. A Rua do Riachuelo sacudia-se ao peso arquejante dos elétricos que vinham da Rua Mem de Sá. Ela ouvia curiosa e entediada o estremecimento do guarda-loiça na sala das visitas. D'impaciência, virou-se-lhe o corpo de bru­ços, e enquanto estava a esticar com amor os dedos dos pés pequeninos, aguardava seu próximo pensamento com os olhos abertos. "Quem encontrou, buscou", disse-se em forma de rifão rimado, o que sempre terminava por parecer com alguma verdade. Até que adormeceu com a boca aberta, a baba a umedecer-lhe o travesseiro.
Só acordou com o marido a voltar do trabalho e a entrar pelo quarto adentro. Não quis jantar nem sair de seus cuidados, dormiu de novo: o homem lá que se regalasse com as sobras do almoço.
E, já que os filhos estavam na quinta das titias em Jacarepaguá, ela aproveitou para amanhecer esquisita: túrbida e leve na cama, um desses caprichos, sabe-se lá. O marido apareceu-lhe já trajado e ela nem sabia o que o homem fi­zera para o seu pequeno almoço, e nem olhou-lhe o fato, se estava ou não por escovar, pouco se lhe importava se hoje era dia dele tratar os negócios na cidade. Mas quando ele se inclinou para beijá-la, sua leveza crepitou como folha seca:
— Larga-te daí!
— E o que tens? pergunta-lhe o homem atônito, a ensaiar imediatamente carinho mais eficaz.
Obstinada, ela não saberia responder, estava tão rasa e princesa que não tinha sequer onde se lhe buscar uma res­posta. Zangou-se:
— Ai que não me maces! não me venhas a rondar como um galo velho!
Ele pareceu pensar melhor e declarou:
— Ó rapariga, estás doente.
Ela aceitou surpreendida, lisonjeada. Durante o dia inteiro ficou-se na cama, a ouvir a casa tão silenciosa sem o bulício dos miúdos, sem o homem que hoje comeria seus cozidos pela cidade. Durante o dia inteiro ficou-se à cama. Sua cólera era tênue, ardente. Só se levantava mesmo para ir à casa de banhos, donde voltava nobre, ofendida.
A manhã tornou-se uma longa tarde inflada que se tornou noite sem fundo amanhecendo inocente pela casa toda.
Ela ainda à cama, tranqüila, improvisada. Ela amava... Estava previamente a amar o homem que um dia ela ia amar. Quem sabe lá, isso às vezes acontecia, e sem culpas nem danos para nenhum dos dois. Na cama a pensar, a pensar, quase a rir como a uma bisbilhotice. A pensar, a pensar. O quê? ora, lá ela sabia. Assim deixou-se a ficar.
Dum momento para outro, com raiva, estava de pé. Mas nas fraquezas do primeiro instante parecia doida e deli­cada no quarto que rodava, que rodava até ela conseguir às apalpadelas deitar-se de novo à cama, surpreendida de que talvez fosse verdade: "ó mulher, vê lá se me vais mesmo adoecer!", disse desconfiada. Levou a mão à testa para ver se lhe tinham vindo febres.
Nessa noite, até dormir, fantasticou, fantasticou: por quantos minutos? até que tombou: adormecidona, a ressonar com o marido.
Acordou com o dia atrasado, as batatas por descascar, os miúdos que voltariam à tarde das titias, ai que até me faltei ao respeito!, dia de lavar roupa e cerzir as peúgas, ai que vagabunda que me saíste!, censurou-se curiosa e satis­feita, ir às compras, não esquecer o peixe, o dia atrasado, a manhã pressurosa de sol.
Mas no sábado à noite foram à tasca da Praça Tira-dentes a atenderem ao convite do negociante tão próspero, ela com vestidito novo que se não era cheio d'enfeites era de bom pano superior, desses que lhe iam a durar pela vida afora. No sábado à noite, embriagada na Praça Tiradentes, embriagada mas com o marido ao lado a garanti-la, e ela cerimoniosa diante do outro homem tão mais fino e rico, procurando dar-lhe palestras, pois que ela não era nenhu­ma parola d'aldeia e já vivera em Capital. Mas borrachona a mais não poder.
E se seu marido não estava borracho é que não queria faltar ao respeito ao negociante, e, cheio d'empenho e d'hu­mildade, deixava-lhe, ao outro, o cantar de galo. O que assentava bem para a ocasião fina, mas lhe punha, a ela, uma dessas vontades de rir! um desses desprezos! olhava o marido metido no fato novo e achava-lhe uma tal piada! Borrachona a mais não poder mas sem perder o brio de rapariga. E o vinho verde a esvaziar-se-lhe do copo.
E quando estava embriagada, como num ajantarado farto de domingo, tudo o que pela própria natureza é separado um do outro — cheiro d'azeite dum lado, homem doutro, terrina dum lado, criado de mesa doutro — unia-se esquisitamente pela própria natureza, e tudo não passava duma sem-vergonhice só, duma só marotagem.
E se lhe estavam brilhantes e duros os olhos, se seus gestos eram etapas difíceis até conseguir enfim atingir o paliteiro, em verdade por dentro estava-se até lá muito bem, era-se aquela nuvem plena a se transladar sem esforço. Os lábios engrossados e os dentes brancos, e o vinho a inchá-la. E aquela vaidade de estar embriagada a facilitar-lhe um tal desdenho por tudo, a torná-la madura e redonda como uma grande vaca.
Naturalmente que ela palestrava. Pois que lhe não fal­tavam os assuntos nem as capacidades. Mas as palavras que uma pessoa pronunciava quando estava embriagada era como se estivesse prenhe — palavras apenas na boca, que pouco tinham a ver com o centro secreto que era como uma gravidez. Ai que esquisita estava. No sábado à noite a alma diária perdida, e que bom perdê-la, e como lembrança dos outros dias apenas as mãos pequenas tão maltratadas — e ela agora com os cotovelos sobre a toalha de xadrez vermelho-e-branco da mesa como sobre uma mesa de jogo, profundamente lançada numa vida baixa e revolucionante. E esta gargalhada? essa gargalhada que lhe estava a sair mis­teriosamente duma garganta cheia e branca, em resposta à finura do negociante, gargalhada vinda da profundeza daquele sono, e da profundeza daquela segurança de quem tem um corpo. Sua carne alva estava doce como a de uma lagosta, as pernas duma lagosta viva a se mexer devagar no ar. E aquela vontade de se sentir mal para aprofundar a doçura em bem ruim. E aquela maldadezita de quem tem um corpo.Palestrava, e ouvia com curiosidade o que ela mesma estava a responder ao negociante abastado que, em tão boa hora, os convidara e pagava-lhes o pasto. Ouvia intrigada e deslumbrada o que ela mesma estava a responder: o que dissesse nesse estado valeria para o futuro em augúrio — já agora ela não era lagosta, era um duro signo: escorpião. Pois que nascera em novembro.
Um holofote enquanto se dorme que percorre a madru­gada — tal era a sua embriaguez errando lenta pelas alturas.
Ao mesmo tempo, que sensibilidade! mas que sensibi­lidade! quando olhava o quadro tão bem pintado do res­taurante ficava logo com sensibilidade artística. Ninguém lhe tiraria cá das idéias que nascera mesmo para outras cousas. Ela sempre fora pelas obras d'arte.
Mas que sensibilidade! agora não apenas por causa do quadro de uvas e peras e peixe morto brilhando nas es­camas. Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebrada. E se quisesse podia permitir-se o luxo de se tornar ainda mais sensível, ainda podia ir mais adiante: porque era protegida por uma situação, pro­tegida como toda a gente que atingiu uma posição na vida. Como uma pessoa a quem lhe impedem de ter a sua des­graça. Ai que infeliz que sou, minha mãe. Se quisesse podia deitar ainda mais vinho no copo e, protegida pela posição que alcançara na vida, emborrachar-se ainda mais, con­tanto que não perdesse o brio. E assim, mais emborracha­da ainda, percorria os olhos pelo restaurante, e que despre­zo pelas pessoas secas do restaurante, nenhum homem que fosse homem a valer, que fosse triste mesmo. Que despre­zo pelas pessoas secas do restaurante, enquanto ela esta­va grossa e pesada, generosa a mais não poder. E tudo no restaurante tão distante um do outro como se jamais um pudesse falar com o outro. Cada um por si, e lá Deus por toda a gente.
Seus olhos de novo fitaram aquela rapariga que, já d'en­trada, lhe fizera subir a mostarda ao nariz. Logo d'entrada percebera-a sentada a uma mesa com seu homem, toda cheia dos chapéus e d'ornatos, loira como um escudo falso, toda santarrona e fina — que rico chapéu que tinha! — vai ver que nem casada era, e a ostentar aquele ar de santa. E com seu rico chapéu bem posto. Pois que bem lhe aproveitasse a beatice! e que se não lhe entornasse a fidalguia na sopa! As mais santazitas eram as que mais cheias estavam de patifa­ria. E o criado de mesa, o grande parvo, a servi-la cheio das atenções, o finório: e o homem amarelo que a acompanhava a fazer vistas grossas. E a santarrona toda vaidosa de seu chapéu, toda modesta de sua cinturita fina, vai ver que não era capaz de parir-lhe, ao seu homem, um filho. Ai que não tinha nada a ver com isso, a bem dizer: mas já d'entrada crescera-lhe a vontade d'ir e d'encher-lhe, à cara de santa loira da rapariga, uns bons sopapos, a fidalguita de chapéu. Que nem roliça era, era chata de peito. E vai ver que, com todos os seus chapéus, não passava duma vendeira d'horta­liça a se fazer passar por grande dama.
Oh, como estava humilhada por ter vindo à tasca sem chapéu, a cabeça agora parecia-lhe nua. E a outra com seus ares de senhora, a fingir de delicada. Bem sei o que te falta, fidalguita, e ao teu homem amarelo! E se pensas que t'invejo e ao teu peito chato, fica a saber que me ralo, que bem me ralo de teus chapéus. A patifas sem brio como tu, a se faze­rem de rogadas, eu lhas encho de sopapos.
Na sua sagrada cólera, estendeu com dificuldade a mão e tomou um palito.
Mas finalmente a dificuldade de chegar em casa desapareceu: remexia-se agora dentro da realidade familiar de seu quarto, agora sentada no bordo de sua cama com a chinela a se balançar no pé.
E, como entrefechara os olhos toldados, tudo ficou de carne, o pé da cama de carne, a janela de carne, na cadeira o fato de carne que o marido jogara, e tudo quase doía. E ela cada vez maior, vacilante, túmida, gigantesca. Se conse­guisse chegar mais perto de si mesma, ver-se-ia inda maior. Cada braço seu poderia ser percorrido por uma pessoa, na ignorância de que se tratava de um braço, e em cada olho podia-se-lhe mergulhar dentro e nadar sem saber que era um olho. E ao redor tudo a doer um pouco. As coisas feitas de carne com nevralgia. Fora o friozito que a tomara ao sair da casa de pasto.
Estava sentada à cama, conformada, cética.
E isso ainda não era nada, só Deus sabia: ela sabia muito bem que isso inda não era nada. Que nesse momento lhe estavam a acontecer cousas que só mais tarde iriam a doer mesmo e a valer: quando ela voltasse ao seu tamanho comum, o corpo anestesiado estaria a acordar latejando e ela iria a pagar pelas comilanças e vinhos.
Então, já que isso terminaria mesmo por acontecer, tanto se me faz abrir agora mesmo os olhos, o que fez, e tudo ficou menor e mais nítido, embora sem nenhuma dor. Tudo, no fundo, estava igual, só que menor e familiar. Esta­va sentada bem tesa na sua cama, o estômago tão cheio, absorta, resignada, com a delicadeza de quem espera sentado que outro acorde. "Empanturras-te e eu que pague o pato", disse-se melancólica, a olhar os deditos brancos do pé. Olha­va ao redor, paciente, obediente. Ai, palavras, palavras, obje­tos do quarto alinhados em ordem de palavras, a formarem aquelas frases turvas e maçantes que quem souber ler, lera.Aborrecimento, aborrecimento, ai que chatura. Que maça­da. Enfim, ai de mim, seja lá o que Deus bem quiser. Que é que se havia de fazer. Ai, é uma tal cousa que se me dá que nem bem sei dizer. Enfim, seja lá bem o que Deus quiser. E dizer que se divertira tanto esta noite! e dizer que fora tão bom, e a gosto seu o restaurante, ela sentada fina à mesa. Mesa! gritou-lhe o mundo. Mas ela nem sequer a responder-lhe, a alçar os ombros com um muxoxo amuado, importunada, que não me venhas a maçar com carinhos; desiludida, resignada, empanturrada, casada, contente, a vaga náusea.
Foi nesse instante que ficou surda: faltou-lhe um sen­tido. Enviou à orelha uma tapona de mão espalmada, o que só fez entornar mais o caldo: pois encheu-se-lhe o ouvi­do de um rumor de elevador, a vida de repente sonora e aumentada nos menores movimentos. Das duas, uma: estava surda ou a ouvir demais — reagiu a essa nova solicitação com uma sensação maliciosa e incômoda, com um suspiro de saciedade conformada. Pros raios que os partam, disse suave, aniquilada.
"E quando no restaurante...", lembrou-se de repente. Quando estivera no restaurante o protetor do marido en­costara ao seu pé um pé embaixo da mesa, e por cima da mesa a cara dele. Porque calhara ou de propósito? O mafar­rico. Uma pessoa, a falar verdade, que era lá bem interes­sante. Alçou os ombros.
E quando no seu decote redondo — em plena Praça Tiradentes!, pensou ela a abanar a cabeça incrédula — a mosca se lhe pousara na pele nua? Ai que malícia.
Havia certas cousas boas porque eram quase nausean­tes: o ruído como de elevador no sangue, enquanto o ho­mem roncava ao lado, os filhos gorditos empilhados no outro quarto a dormirem, os desgraçadinhos. Ai que cousa que se me dá! pensou desesperada. Teria comido demais? ai que cousa que se me dá, minha santa mãe!
Era a tristeza.
Os dedos do pé a brincarem com a chinela. O chão lá não muito limpo. Que relaxada e preguiçosa que me saíste. Amanhã não, porque não estaria lá muito bem das pernas. Mas depois de amanhã aquela sua casa havia de ver: dar-lhe-ia um esfregaço com água e sabão que se lhe arrancariam as sujidades todas! a casa havia de ver! ameaçou ela colérica. Ai que se sentia tão bem, tão áspera, como se ainda estivesse a ter leite nas mamas, tão forte. Quando o amigo do marido a viu tão bonita e gorda ficou logo com respeito por ela. E quando ela ficava a se envergonhar não sabia aonde havia de fitar os olhos. Ai que tristeza. Que é que se há de fazer. Sentada no bordo da cama, a pestanejar resignada. Que bem que se via a lua nessas noites de verão. Inclinou-se um pouquito, desinteressada, resignada. A lua. Que bem que se via. A lua alta e amarela a deslizar pelo céu, a coitadita. A deslizar, a deslizar... Alta, alta. A lua. Então a grosseria ex­plodiu-lhe em súbito amor: cadela, disse a rir.

Explico o nome

Explico agora o nome do meu blog... por ele..

Vinicius de Moares - Soneto do Amor total

Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim,de um calmo amor prestante
E amo-te além,presente na saudade
Amo-te,enfim,com grande liberdade
Dentro da eternidadee a cada instante

Amo-te como bicho,simplesmente
de um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim,muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude
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